sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O paradoxo de Olbers

Antes de iniciarmos a nossa discussão sobre o paradoxo de Olbers, sugiro que reflitamos sobre o que é um paradoxo. Um paradoxo é um afirmação que é aparentemente verdadeira, porém, conduz a conclusões logicamente contraditórias. Os paradoxos foram alguns dos melhores promotores do pensamento crítico e científico. Um dos mais famosos paradoxos de Zenão de Eléia, o de Aquiles e a tartaruga, foi o promotor do pensamento matemático acerca dos limites de convergência e da noção de infinito. Os paradoxos sempre foram intrigantes e muitos filósofos naturais dedicaram a sua vida a tentar esclarecê-los.

No século XIX, um astrónomo alemão formulou um dos mais intrigantes paradoxos da astronomia. O seu nome era Heinrich Wilhelm Matthäus Olbers (1758 – 1840) e a certa altura ele perguntou-se: "Porque é que o seu é escuro?" Esta pergunta simples e objetiva foi a promotora de descobertas nunca antes imaginadas pelos físicos e pelos astrónomos. O questionamento e o raciocínio subjacente de Olbers foram de uma sagacidade extrema. Se o universo fosse infinito e tivesse existido desde sempre, então ele deveria ser tão brilhante quanto o Sol, e no entanto não é isso que acontece.

Heinrich Olbers (1758 – 1840)


Muitos pensadores no passado talvez se tenham intrigado com este paradoxo, embora nunca o tenham registado. Contrariamente, Johannes Kepler (1571 – 1630), registou a sua incompreensão sobre o porquê do céu ser escuro. No entanto, foi Olbers que formalmente enunciou o paradoxo. Uma observação tão simples promoveu uma gigantesca revolução no pensamento dos astrónomos.


Johannes Kepler (1571 – 1630) 
Uma das explicações encontradas para este paradoxo é que o universo não é infinito e, por isso, tem um número finito de estrelas pelo que não existem estrelas em qualquer direção que observemos. Uma outra explicação reside na distância a que nos encontramos das várias estrelas. A radiação proveniente do Sol demora cerca de 8 minutos a atingir a Terra enquanto que a radiação emitida pela estrela Alfa Centauro (a segunda mais próxima de nós) demora cerca de 4 anos a atingir a Terra. Mais ainda, a radiação proveniente da galáxia Andrómeda demora cerca de 2 milhões de anos a chegar até nós. À medida que olhamos mais longe, olhamos também mais atrás na escala temporal. Isso significa que a nossa perceção é que as estrelas mais longe são mais jovens do que as mais próximas. Ou seja, haverá um limite a partir do qual não existem estrelas simplesmente porque numa altura do passado ainda não haviam estrelas nenhumas no universo.

É claro que o desvio para o vermelho (redshift) também pode explicar o paradoxo de Olbers. À medida que o universo de expande, os comprimentos de onda da radiação emitida pelas estrelas são alongados, o que faz com que as estrelas mais longínquas nos pareçam muito mais frias do que na realidade são. As estrelas mais antigas que vemos no firmamento datam de há 13 mil milhões de anos. O paradoxo de Olbers ajudou os astrónomos a perceberem que o universo possui limites e que teve "data de nascimento". Realmente, mais uma vez, os paradoxos permitiram que o conhecimento científico pudesse evoluir abrindo novas perspetivas e novas abordagens para a compreensão do mundo físico.

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